terça-feira, 14 de novembro de 2017

O ARACUÃ
























ARACUÃ
Alex Rocha
Óleo Sobre Tela
0;80X1;20
2017




OS OLHOS QUE MORAM NA CAIXA DE FERRAMENTAS




Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram". 
 Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física. 
 William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
 Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema. 
 Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção". 

 A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.


 Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".


 Rubem Alves

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O TUCANO (O quintal da minha casa é maior que o mundo)










O Tucano ( O quintal da minha casa é maior que o mundo)
 0,80 X 1,20
 Óleo sobre tela
2017
 Alex Rocha




No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.




A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som.






Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.

E pois.









Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos — O verbo tem que pegar delírio.













Manoel de Barros



domingo, 6 de novembro de 2016

O fazedor de amanhecer
















Ales Rocha
Óleo sobre tela
0,70 X 1,00
2016













Sou leso em tratagens com máquina. 
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
 Em toda a minha vida só engenhei 3 máquinas 
Como sejam: 
Uma pequena manivela para pegar no sono. 
Um fazedor de amanhecer para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo. 
E a glória entronizou-se para sempre em minha existência.


Manoel de Barros

domingo, 23 de outubro de 2016

O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS

Alex Rocha
0,60 X 0,80
Óleo sobre Tela
2016



Uso a palavra para compor meus silêncios.
 Não gosto das palavras fatigadas de informar.
 Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão 
tipo água pedra sapo.
 Entendo bem o sotaque das águas
 Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
 Prezo insetos mais que aviões.
 Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. 
Tenho em mim um atraso de nascença.
 Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. 
Tenho abundância de ser feliz por isso. 
Meu quintal é maior do que o mundo. 
Sou um apanhador de desperdícios: Amo os restos como as boas moscas
 Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
 Porque eu não sou da informática:
 eu sou da invencionática.
 Só uso a palavra para compor meus silêncio. 


 Manoel de Barros

terça-feira, 28 de junho de 2016

A Incapacidade de Ser Verdadeiro








Marionete
òleo Sobre Tela
0,70 X 1,00
Alex Rocha
2016


























Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos feito de queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo.





Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias. Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. 












Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça: – Não há nada a fazer, Dona Colo. Este menino é mesmo um caso de poesia. Carlos 
















Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 21 de abril de 2016

O Operário Em Construção



























Auto Retrato
Alex Rocha


E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. IV, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído

O operário em construção.

Vinicius de Moraes

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Um Canto de Sabiá

Um canto no quintá, o que será? Um agitar de asas, um voo rasante, o que será que há?
Que isso minino que chega num alarmar. Fazendo festa, fazendo pirraça. O que será que há?
_Minino vê lá no fundo, que é que tá fazendo tanto barulho.
_Zé, coloca a gaiola no chão, Biá quer brincar!
_Coloco Maria!
Biá dispara a cantar.
_Minino, deixa Biá cantar.
_Deixo mainha. É que ela gosta de beliscar.

E Biá voa, mostrando que e dona do nosso quintá. Minina sabida, só come as furmiga bateno as asinha um doce de amar. 
_Qui será que Biá pensa? Que é dela o canto de amar?
 Ela é sabidinha, balança a asinha , e dá um beijinho , uma biliscadinha de leve, e torna vuar. Eu de longe olho pra ela, queria ter daquela um dedinho do incantar.  Passea o dia todinho, sem nem pro sol ligar. Bia tá nem aí!
_Mainha tem medo de gato pegar.
_Gato pega nada! Biá botô inté cachorro pra correr, que dirá um bichano inferná!
 _Quiria ser que nem ela, vuar o tempo todinho, cantar e cantar.
_Zé coloca a gaiola, Biá quer entrar!

E ela vai certinha pra tirar um cochilar.
E a noite passa rapidinho. E é hora de Bíá cantar.
Zé coloca a gaiola no chão. Mais hoje num tem cantar. Mainha num tem palavra. Zé num só murmurar. Biá foi pro céu dos passarinhos, onde agora vai morar. Tirei um retrato dela só pra nois oiá.

_Ispertinha a bichinha, fez inté pose, No meu coração vou guardar!



Cida Flores

sábado, 9 de abril de 2016

O Pássaro Encantado









O Pássaro Encantado
Alex Rocha
2016
Óleo sobre tela
0,60 X 0,50


O Pássaro Encantado


Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.

Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.

Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…

— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…

E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.

Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.

— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.

E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.

Mas chegava a hora da tristeza.

— Tenho de ir — dizia.

— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…

— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.

Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”

Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.

Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…

— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…

A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.

Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…

Até que não aguentou mais.

Abriu a porta da gaiola.

— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…

— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…

E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.

— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…

E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.

— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…

Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!

Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…

E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”

E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.






As mais belas histórias de Rubem Alves
Lisboa, Edições Asa, 2003

sábado, 25 de julho de 2015

CARRINHO DE MADEIRA










Carrinho de Madeira
Alex Rocha
Óleo S/tela
(0,70 x 0,50 cm)
2015








Brinquedos



Minhas netas: Quando eu era menino eu brincava muito. Brincar é a coisa mais gostosa. Algumas pessoas grandes têm vergonha de brincar; acham que brincar é coisa de criança. O resultado é que elas ficam sérias, preocupadas, ranzinzas, amargas, implicantes, chatas, impacientes. Perdem a capacidade de rir e ninguém gosta da sua companhia. Quem brinca não fica velho. Pode ficar velho por fora, como eu. Mas por dentro continua criança, como eu... Naquele tempo o jeito de as meninas e os meninos brincarem era muito diferente do jeito de hoje. Hoje, falou brincar, falou comprar brinquedo. E os brinquedos se encontram nas lojas e custam dinheiro. Mas lá na roça onde eu morava não havia nem lojas. E mesmo que houvesse, eu era um menino pobre. Não tinha dinheiro para comprar brinquedos. Eu brincava. Brincava sem comprar brinquedos. Não precisava. Eu fazia meus brinquedos. Na verdade, fazer os brinquedos era a parte mais divertida do brincar. Já lhes contei sobre o carrinho de lata de sardinha que tenho guardado entre os meus brinquedos. Quando o vi, lembrei-me de mim mesmo, fazendo os meus brinquedos. O menino que fez aquele carrinho era um menino pobre. E eu o vejo trabalhando para fazer o brinquedo que ele não podia comprar. E imagino o orgulho que ele sentiu quando o carrinho ficou pronto. “Fui eu que fiz!” Um amigo meu, o Vidal, me deu um caminhão que ele mesmo fez, como presente de Natal. É um caminhão tanque. O tanque é feito com uma lata de óleo deitada. A cabine, com janelas e espelhos retrovisores, é feita com uma lata de azeite. As antenas e o cano de escapamento são feitos com pedaços de antenas velhas que ele encontrou em lojas onde se consertam rádios. E as rodas, ele as fez cortando, com um serrote, fatias de um cabo de enxada, iguais às fatias que se cortam de um salame. Para se fazer um brinquedo é preciso usar a imaginação. A imaginação é um poder mágico que existe na nossa cabeça. Magia é transformar uma coisa em outra pelo poder do pensamento. A bruxa fala: “Sapo” e o lindo príncipe vira sapo... O menino que fez o carrinho com a lata de sardinha teve de usar a sua imaginação mágica também. Ele olhou para a lata de sardinha abandonada e disse: “Carrinho”. E foi esse carrinho que ele viu com o pensamento que fez com que ele trabalhasse para fazer o carrinho. A imaginação gosta de brincar. A brincadeira de que ela mais gosta é o faz-de-contas. É brincando de faz-de-contas que ela constrói brinquedos. Faz de contas que uma lata de sardinha é um carrinho . Faz de contas que o cachorrinho de pelúcia é um cachorrinho de verdade . Faz de contas que o travesseiro macio é uma pessoa de quem a gente gosta muito. Faz de contas que esses bolinhos de barro são brigadeiros. Faz de contas que a minha mão com o dedo esticado é um revolver. Faz de contas que o cabo de vassoura é um cavalinho que se chama Valente. Faz de contas que esse pedaço de bambu é uma espada... A Raquel, minha filha, tinha 4 anos. Eu a levei ao cinema para ver o ET. O cinema é também uma brincadeira de faz-de-contas. Enquanto a gente está lá a gente vive, ri e chora “como se” tudo fosse verdade. Prestem atenção nisso: essa é uma das coisas mais extraordinárias dos seres humanos: temos a capacidade de viver e sentir coisas que não existem, coisas que são produto da imaginação, como se elas fossem reais. Quem não chorou vendo o filme O Rei Leão? Quem não ficou com raiva da Madrasta e da Drizela? Quem não torceu pelos cãezinhos dálmatas? Pois a Raquel saiu do cinema e chorou, chorou, chorou... Não houve o que a consolasse. Depois do jantar eu resolvi consolá-la. Para consolá-la eu precisava entrar no jogo de faz-de-contas. Aí eu lhe disse: “Vamos lá fora ver se achamos a estrelinha que é a casa do ET!” Ela se levantou, animada. Mas aí, decepção. O tempo tinha mudado. O céu estava coberto de nuvens. Não havia estrelinhas para serem vistas. Pensei rápido. Uma mudança de tática era necessária. “Olha lá, Raquel, atrás da palmeira! O ET está lá”. Ela não sorriu, como eu esperava. Não entrou na minha brincadeira. “O ET não existe, papai.”, ela respondeu séria. Então eu disse: “Ah! É? Se não existe, porque é que você estava chorando?” Ela me respondeu: “Por isso mesmo, porque ele não existe...” Que coisa mais misteriosa, mais bonita: que nós sejamos capazes de ter alegrias e tristezas por causa de coisas que não existem. As crianças são as que melhor sabem brincar o jogo do faz-de-contas com a imaginação. Os grandes vão perdendo progressivamente essa capacidade. Acho que é por efeito de uma doença que, creio eu, eles pegam na escola. As escolas e os seus programas não sabem o que fazer com a imaginação, porque não há formas de fazer testes de múltipla escolha. Imagine uma prova com esta questão: “Marque a alternativa certa: ( ) Um cavalo verde; ( ) Um cavalo com chifre no nariz; ( ) Um cavalo com asas; ( ) Um cavalo com tronco de homem; ( ) Um cavalo falante. Parece absurdo. Mas todos esses cavalos são personagens da literatura. Pergunte ao seu pai; ele tem obrigação de saber. À medida que as pessoas vão crescendo elas vão perdendo a capacidade de imaginar. Os adultos acham que quem imagina é meio doido. Uma vez vi um filme com os quadros pintados por um homem que alguém (deve ter sido um parente dele) mandou trancar num hospital de loucos. Eram quadros absolutamente fantásticos. Enquanto o filme mostrava os quadros a voz de uma psicanalista invisível ia interpretando as telas para mostrar a doideira do artista. E a maior prova da sua doidice foi um quadro que ele pintou de uma árvore no alto de uma montanha com um barco flutuando no céu. A tal voz não sabia que arte é uma brincadeira de faz-de-contas, onde tudo é possível. O pintor Chagal pintou uma noiva camponesa voando, e Dalí fez um retrato dele mesmo que parece uma panqueca mole mantida em pé por uma série de bengalas parecidas com ganchos de estilingue. Se é que vocês não sabem, todas as coisas que os artistas fazem são brinquedos. Na escola e na ciência as pessoas aprendem a olhar para a coisa e ver a coisa. Mas as crianças e os seus amigos artistas olham para as coisas e vêem outras. E é assim que surgem as obras de arte e os brinquedos, que são a mesma coisa. Mas a imaginação sozinha não faz arte. Quem faz a obra de arte é o artista. Para isso ele tem de saber usar as ferramentas apropriadas: martelo, cinzel, pincel, tinta... Eu, para fazer os meus brinquedos, tive de aprender a usar ferramentas. Aprendi a usar o canivete, a afiar o canivete, a usar o martelo (é uma delícia pregar um prego numa tábua mole, sem entortar...), o serrote, o alicate, as agulhas, os barbantes, a régua, as cordas, o fogo. O fogo tinha múltiplos usos. Um arame em brasa serve para furar um bambu. E o fogo era indispensável também para fazer ferver a mistura de água e polvilho com que se fazia grude, necessário para colar o papel de seda dos papagaios. Me cortei muitas vezes, martelei o dedo, me feri com o serrote e a agulha, me queimei. Mas não há jeito de aprender a usar as ferramentas sem se machucar. E aprendi a cuidar dos meus ferimentos, sem precisar chorar. Fazer um brinquedo é um trabalho que se faz com prazer, sem precisar que alguém mande. Tudo que se faz com prazer é brinquedo. Ninguém tem preguiça de trabalhar fazendo um brinquedo. Quando a gente está com preguiça de trabalhar (ou de estudar) é porque aquilo que se está fazendo não é brinquedo, é trabalho forçado. Não é coisa que dê prazer.

 Ruben Alves (Correio Popular, 10/03/2002)

sexta-feira, 10 de julho de 2015

SEMEADOR DE HISTÓRIA


SEMEADOR DE HISTÓRIA
Óleo sobre tela - 2015
0,80 x1,00
Alex Rocha







Poesia não é coisa que fica, não.
Poesia é coisa que vem e passa.
Passa como um passarinho muito raro.
Passa depressa.
A gente vai querer segurar,
ele voa e vai-se embora.
Hoje, quando eu estava pintando o braço de São Francisco, ali perto da cabeça dele, eu senti um – viup – um raspão de poesia.


(Candido Portinari)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O DESAFIO





O DESAFIO
Óleo s/tela
Alex rocha
2015












A visagem da moça caetana


A sentença da moçaA Sentença já foi proferida. Saia de casa e cruze o Tabuleiro pedregoso. Só lhe pertence o que por você for decifrado. Beba o Fogo na taça de pedra dos Lajedos. Registre as malhas e o pêlo fulvo do jaguar, o pêlo vermelho da Suçuarana, o Cacto com seus frutos estrelados. Anote o Pássaro com sua flecha aurinegra e a Tocha incendiada das macambiras cor de sangue. Salve o que vai perecer: o Efêmero sagrado, as energias desperdiçadas, a luta sem grandeza, o Heróico assassinado em segredo, o que foi marcado de estrelas - tudo aquilo que, depois de salvo e assinalado, será para sempre e exclusivamente seu. Celebre a raça de Reis escusos, com a Coroa pingando sangue: o Cavaleiro em sua Busca errante, a Dama com as mãos ocultas, os Anjos com sua espada, e o Sol malhado do Divino com seu Gavião de ouro.
Entre o Sol e os cardos, entre a pedra e a Estrela, você caminha no Inconcebível. Por isso, mesmo sem decifrá-lo, tem que cantar o enigma da Fronteira, a estranha região onde o sangue se queima aos olhos de fogo da Onça-Malhada do Divino. Faça isso, sob pena de morte! Mas sabendo, desde já, que é inútil. Quebre as cordas de prata da Viola: a Prisão já foi decretada! Colocaram grossas barras e correntes ferrujosas na Cadeia. Ergueram o Patíbulo com madeira nova e afiaram o gume do Machado. O Estigma permanece. O silêncio queima o veneno das Serpentes, e, no Campo de sono ensangüentado, arde em brasa o Sonho perdido, tentando em vão reedificar seus Dias, para sempre destroçados".

Ariano Suassuna

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O PALHAÇO E A NOITE












O Palhaço e a Noite
Óleo sobre tela
0,80X100 Cm
Alex Rocha









Seresta Sertaneza
Elomar Figueira

Nos raios de luz de um beijo puro
me estremeço e eis-me a navegar
por cerúleas regiões
onde ao avaro e ao impuro não é dado entrar
tresloucado cavaleiro andante
a vasculhar espaços
de extintos ceus
num confronto derradeiro
vencí prometeu, anjo do mal
o mais cruel
acusador de meus irmãos
neStes mundos dissipados
magas entidades dotam o corpo meu
de poderes encantados
mágicos sentidos
na razão dos ceus
pois fundir o espaço e o tempo
vencer as tentações rasteiras
do instinto animal
só é dado a quem vê no amor
o único portal
através de infindas sendas
vias estelares um cordel de luz
trago atado ao umbigo ainda
pois não transmudei-me ao reino dos cristais
apois Deus acorrentou os sábios
na prisão escura das tres dimensões
e escravisados desde então
a serviço dos maus
vivem a mentir
vivem a enganar
a iludir os corações
visitante das estrelas
hóspede celeste visões ancestrais
me torturam pois ao tê-las
quebra o encanto e torno ao mundo de meus pais
À minha origem planetária
enfrentar a mansão da morte do pranto e da dor
donzela fecha esta janela
e não me tentes mais.

domingo, 21 de dezembro de 2014

QUANDO AS CRIANÇAS BRINCAM












QUANDO AS CRIANÇAS BRINCAM
Óleo sobre Eucatex
Alex Rocha - 2014
(Trabalho com base na obra de Dacosta)


QUANDO AS CRIANÇAS BRINCAM.


Quando as crianças brincam 
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.
E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.
Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.


Fernando Pessoa

 



quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O GALO E O RELÓGIO









O Galo e o Relógio
Alex Rocha
Óleo sobre tela
2014














O Relógio

Ao redor da vida do homem

há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.

Se são jaulas não é certo;

mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.

Umas vezes, tais gaiolas

vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.

Mas onde esteja: a gaiola

será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guarda;

e de pássaro cantor,
não pássaro de plumagem:
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade

João Cabral de Melo Neto

quinta-feira, 26 de junho de 2014

CACHORRO





Cachorro
Óleo  Sobre Tela
60X80
Alex Rocha
2014















 O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.


Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,

a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.
(Morte e Vida Severina.


                                                                                     Introdução "Morde e vida Severiana”
                                                                                                    João Cabral de Melo Neto

quinta-feira, 24 de abril de 2014

PINÓQUIO







PINÓQUIO
Óleo sobre Tela
1,50 X 0,80
2014





O FILHO QUE EU QUERO TER

É comum a gente sonhar, eu sei, quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar com o pranto a me correr
E assim chorando acalentar o filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho, dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho de tanto amor que ele tem

De repente eu vejo se transformar num menino igual à mim
Que vem correndo me beijar quando eu chegar lá de onde eu vim
Um menino sempre a me perguntar um porque que não tem fim
Um filho a quem só queira bem e a quem só diga que sim
Dorme menino levado, dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado de tanta dor que ele tem

Quando a vida enfim me quiser levar pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar no derradeiro bei..jo seu
E ao sentir também sua mão vedar meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar num acalanto de adeus
Dorme meu pai sem cuidado, dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado, com o filho que ele quer Ter
.
Toquinho/Vinícius de Moraes


terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O ANJO (Salamandriel)

O ANJO (Salamandriel)
Alex Rocha
Óleo sobre madeira
2,10 X 1,50
2013



NOTURNO

Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.

Será que mais Alguém vê e escuta?

Sinto o roçar das asas Amarelas
e escuto essas Canções encantatórias
que tento, em vão, de mim desapossar.

Diluídos na velha Luz da lua,
a Quem dirigem seus terríveis cantos?

Pressinto um murmuroso esvoejar:
passaram-me por cima da cabeça
e, como um Halo escuso, te envolveram.
Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,
a ventania me agitando em torno
esse cheiro que sai de teus cabelos.

Que vale a natureza sem teus Olhos,
ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

Da terra sai um cheiro bom de vida
e nossos pés a Ela estão ligados.
Deixa que teu cabelo, solto ao vento,
abrase fundamente as minhas mão...

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,
o vento encrespa as Águas dos dois rios
e continua a ronda, o Som do fogo.


Ó meu amor, por que te ligo à Morte?


Ariano suassuna

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

ASAS DO PENSAMENTO









ASAS DO PENSAMENTO
Alex Rocha
Óleo sobre Tela
2013











Asas do Pensamento

Em suas asas o pensamento vaga
 Nos caminhos da imaginação. 
O amor que ilumina estrada, 
Na dor funde à escuridão.
 A esperança que amontoa brasa,
 Seca o pranto regando alegria. 
Tocha acesa que nunca se apaga: O amor revela poesia.


Reflexão


À noite eu desço Ao quintal dos meus sonhos E encontro projetos guardados, Rasgados, abandonados, tristonhos.



São pétalas e flores Guardadas num livro.
São perdas e dores,

Amores e amigos...



Às vezes mergulho Em túneis perdidos.
 Revivo lembranças, Retratos antigos.
A vida é uma dança
E quem não tem par Não dança...




Desperta pra vida Que ainda é cedo. 
Me toma em teus braços,
 Esquece esse medo...




Sem beijos e abraços Não da pra viver. Sem laços, Sem ter você!

Júlia Lícia














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