terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O ANJO (Salamandriel)

O ANJO (Salamandriel)
Alex Rocha
Óleo sobre madeira
2,10 X 1,50
2013



NOTURNO

Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.

Será que mais Alguém vê e escuta?

Sinto o roçar das asas Amarelas
e escuto essas Canções encantatórias
que tento, em vão, de mim desapossar.

Diluídos na velha Luz da lua,
a Quem dirigem seus terríveis cantos?

Pressinto um murmuroso esvoejar:
passaram-me por cima da cabeça
e, como um Halo escuso, te envolveram.
Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,
a ventania me agitando em torno
esse cheiro que sai de teus cabelos.

Que vale a natureza sem teus Olhos,
ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

Da terra sai um cheiro bom de vida
e nossos pés a Ela estão ligados.
Deixa que teu cabelo, solto ao vento,
abrase fundamente as minhas mão...

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,
o vento encrespa as Águas dos dois rios
e continua a ronda, o Som do fogo.


Ó meu amor, por que te ligo à Morte?


Ariano suassuna

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

ASAS DO PENSAMENTO









ASAS DO PENSAMENTO
Alex Rocha
Óleo sobre Tela
2013











Asas do Pensamento

Em suas asas o pensamento vaga
 Nos caminhos da imaginação. 
O amor que ilumina estrada, 
Na dor funde à escuridão.
 A esperança que amontoa brasa,
 Seca o pranto regando alegria. 
Tocha acesa que nunca se apaga: O amor revela poesia.


Reflexão


À noite eu desço Ao quintal dos meus sonhos E encontro projetos guardados, Rasgados, abandonados, tristonhos.



São pétalas e flores Guardadas num livro.
São perdas e dores,

Amores e amigos...



Às vezes mergulho Em túneis perdidos.
 Revivo lembranças, Retratos antigos.
A vida é uma dança
E quem não tem par Não dança...




Desperta pra vida Que ainda é cedo. 
Me toma em teus braços,
 Esquece esse medo...




Sem beijos e abraços Não da pra viver. Sem laços, Sem ter você!

Júlia Lícia














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sábado, 9 de novembro de 2013

CRIANÇA










CRIANÇA
ÓLEO s/TELA
0,70 X 1.00
Alex Rocha





























O MENINO MAIS VELHO


Inferno: esta palavra tinha chamado a atenção do menino
mais velho. Perguntou à Sinha Vitória, que foi vaga na resposta.
Perguntou a Fabiano, que o ignorou. Na volta à Sinha Vitória,
indagou se ela já tinha visto o inferno. Levou um cascudo e
fugiu indignado. Baleia fez-lhe companhia, tentando alegrá-lo
naquela hora difícil.
“Aí Sinha Vitória se zangou, achou-o insolente e aplicoulhe
um cocorete.
O menino saiu indignado com a injustiça, atravessou o
terreiro, escondeu-se debaixo das catingueiras murchas, à
beira da lagoa vazia.

A cachorra Baleia acompanhou-o naquela hora difícil.
Repousava junto à trempe, cochilando no calor, à espera de
um osso. Provavelmente não o receberia, mas acreditava em
ossos, e o torpor que a embalava era doce.”
Decidiu contar à cachorra uma história, mas o seu vocabulário
era muito restrito, quase igual ao do papagaio sacrificado na
viagem.
Olhou para o céu e sentiu-se melancólico. Pensou novamente
no inferno. Deveria ser um lugar ruim e perigoso, cheio de
jararacas e pessoas levando cascudos e pancadas com a bainha

da faca.

trecho ade Vidas Secas ( Graciliano Ramos).

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A MORTE DE BALEIA








CACHORRO
Grafite sobre Canson
Alex Rocha









Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras no pé de turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia, que se pôs a latir desesperadamente.
Ouvindo o tiro e os latidos, sinha Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na cama, chorando alto. Fabiano recolheu-se.
E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.
Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda.
Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos colados às feridas, era um bicho diferente dos outros.
Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a custo, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas.
Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptíveis. (…)
Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera.
Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança.
Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.
Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros
de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde sinha Vitória guardava o cachimbo. (…)
Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.

Trecho do Livros "Vidas Secas" de Graciliano Ramos






domingo, 23 de junho de 2013

ALEX ROCHA


sábado, 1 de junho de 2013

MADONA DO SERTÃO










MADONA DO SERTÃO
Óleo sobre tela
80 X 120
Alex Rocha
2012
















Tá fechando sete tempo
qui mia vida é camiá
pulas istradas do mundo
dia e noite sem pará
Já visitei os sete rêno
adonde eu tia qui cantá
sete didal de veneno
traguei sem pestanejá
mais duras penas só eu veno
ôtro cristão prá suportá



sô irirmão do sufrimento
de pauta vea c'a dô
ajuntei no isquicimento
o qui o baldono guardô









meus meste a istrada e o vento
quem na vida me insinô
vô me alembrano na viage
das pinura qui passei
daquelas duras passage
nos lugari adonde andei
Só de pensá me dá friage
nos sucesso qui assentei
na mia lembrança




ligião de condenados
nos grilhão acorrentados
nas treva da inguinorança
sem a luiz do Grande Rei
tudo isso eu vi nas mia andança
nos tempo qui eu bascuiava
o trecho alei
tô de volta já faiz tempo
qui dexei o meu lugá
isso se deu cuano moço
qui eu saí a percurá
nas inlusão que hai no mundo
nas bramura qui hai pru lá
saltei pur prefundos pôço
qui o Tioso tem pru lá




Jesus livrô derna d'eu môço
do raivoso me paiá
já passei pur tantas prova
inda tem prova a infrentá
vô cantando mias trova
qui ajuntei no camiá
lá no céu vejo a lua nova
cumpaia do istradá
ele insinô qui nois vivesse
a vida aqui só pru passá
nois intonce invitasse
o mau disejo e o coração
nois prufiasse pra sê branco
inda mais puro


qui o capucho do algudão
qui nun juntasse dividisse
nem negasse a quem pidisse
nosso amô o nosso bem
nossos terém nosso perdão
só assim nois vê a face ogusta
do qui habita os altos ceus
o Piedoso o Manso o Justo
o Fiel e cumpassivo
Siô de mortos e vivos
Nosso Pai e nosso Deus
disse qui havéra de voltá
cuano essa terra pecadora
marguiada in transgressão
tivesse chea de violença
de rapina de mintira e de ladrãoSó de pensá me dá friage
nos sucesso qui assentei
na mia lembrança
ligião de condenados
nos grilhão acorrentados
nas treva da inguinorança
sem a luiz do Grande Rei
tudo isso eu vi nas mia andança
nos tempo qui eu bascuiava
o trecho alei
tô de volta já faiz tempo
qui dexei o meu lugá
isso se deu cuano moço
qui eu saí a percurá
nas inlusão que hai no mundo
nas bramura qui hai pru lá






saltei pur prefundos pôço
qui o Tioso tem pru lá
Jesus livrô derna d'eu môço









do raivoso me paiá
já passei pur tantas prova
inda tem prova a infrentá
vô cantando mias trova
qui ajuntei no camiá
lá no céu vejo a lua nova
cumpaia do istradá
ele insinô qui nois vivesse
a vida aqui só pru passá
nois intonce invitasse
o mau disejo e o coração
nois prufiasse pra sê branco
inda mais puro
qui o capucho do algudão
qui nun juntasse dividisse
nem negasse a quem pidisse
nosso amô o nosso bem
nossos terém nosso perdão




só assim nois vê a face ogusta
do qui habita os altos ceus
o Piedoso o Manso o Justo
o Fiel e cumpassivo
Siô de mortos e vivos
Nosso Pai e nosso Deus
disse qui havéra de voltá
cuano essa terra pecadora
marguiada in transgressão
tivesse chea de violença

de rapina de mintira e de ladrão





cantiga do Estradar - Elomar Figueira



sábado, 20 de abril de 2013

O PALHAÇO-D'QUIXOTE









O PALHAÇO-D'QUIXOTE
Óleo sobre tela
Alex Rocha
2013














La dentro no fundo do sertão tem um mundo encantado.


 Atrás da paisagem branca e vermelha, no fundo do sertão tem uma gente de sonhos, causos e aventuras. No fundo, lá no fundo do sertão, atrás do gado e plantas secas tem um povo rico de sonhos onde brota a  esperança.

Bem no  fundo do sertão tem um povo que canta e sonha!


Alex Rocha






A BOBOTINHA




A BOBOTINHA-JÚLIA
Óleo sobre tela
Alex Rocha



















O Rapto de Joana do Tarugo



Enfrentei fosso muralha e os ferros dos portais
Só pela graça da gentil senhora
Filtrando a vida pelos grãos de ampulhetas mortais
D'além de trás dos montes venho
Por campos de justas honrando este amor
Me expondo à sanha sanguinária de côrtes cruéis
Enfrentei vilões no Algouço e em Senhores de Biscaia
Fidalgos corpos de armas brunhidas
Não temo escorpiões cruéis carrascos vosso pai
Enfreado à porta de castelo
Tenho meu murzelo ligeiro e alazão
Que em lidas sangrentas bateu mil mouros infiéis
Ó Senhora dos Sarsais
Minh'alma só teme o Rei dos reis
Deixa a alcova vem-me à janela
Ó Senhora dos Sarsais
Só por vosso amor e nada mais
Desça da torre Naíla donzela
Venho d'um reino distante, errante e menestrel
Inda esta noite eu tenho esta donzela
Minha espada empenho a uma deã mais pura das vestais
Aviai pois a viagem é longa
Já vim preparado para vos levar
Já tarda e quase que o minguante está a morrer nos céus
Ó Senhora dos Sarsais
Minh'alma só teme o Rei dos Reis
Deixa a alcova vem-me à janela
Ó Senhora dos Sarsais
Só por vosso amor e nada mais
Desça da torre Joana tão bela
Naíla donzela, Joana tão bela




Elomar Figueira Melo

sábado, 23 de fevereiro de 2013

A JUSTIÇA







A JUSTIÇA
Óleo sobre tela
Alex Rocha
2013









SÍMBOLO DA JUSTIÇA
 
Espada – A imagem da Espada representa coragem, força, regra e ordem. Significa a razão de forma clara e a força necessária para que os objetivos de justiça sejam alcançados.
Balança – Representa a igualdade, o equilíbrio e a ponderação. Aqui, o significado máximo é de que a justiça precisa ser igualitária, sem pender para nenhum lado envolvido, de forma as decisões aplicadas pela lei sejam justas e honestas.
Deusa de olhos vendados – Geralmente é uma imagem da deusa romana Justitia, que equivale à deusa grega Diké. No Direito, esta imagem muito presente nos símbolos da Justiça reafirma a intenção de que o tratamento da justiça deve ser igualitário para todos, sem nenhuma distinção ou tratamento diferenciado. Ao mesmo tempo, revela que a justiça busca a imparcialidade e ser objetiva em suas decisões. Como diz a afirmativa: “Todos são iguais perante a lei”.
Assim, como a Justiça está com seus olhos vendados, suas decisões são livres de interferências, resolvendo as questões de maneira clara e somente de acordo com as leis. Na imagem original, não havia a venda. Porém, através de uma interferência do povo alemão, surgiu a imagem com a venda, presente até os dias de hoje na maioria das representações e símbolos da Justiça em todo mundo.
Deusa de olhos abertos e sem venda – Este símbolo deve ser interpretado como a necessidade no Direito de impedir que qualquer detalhe importante para a aplicação da lei não seja levado em conta. Ou seja, trata-se de uma questão de obter um julgamento a partir de todos os pontos de vistas.
A FORÇA DOS SÍMBOLOS DA JUSTIÇA JUNTOS
Assim, os símbolos da Justiça juntos representam uma grande metáfora, repleta de significados. A Justiça sem a espada para determinar e impor sua aplicação é um organismo sem força. Por sua vez, a Justiça sem o equilíbrio da balança é pura força bruta, irracional e sem lógica. Da mesma maneira que sem a venda nos olhos sua imparcialidade fica comprometida. Cada um completa o outro elemento para que as decisões da Justiça sejam as mais justas, sempre!

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

INCELENÇA PARA SECA















ESTUDO
 Incelença para Seca
Alex Rocha





















RETIRADA
Elomar Figueira Melo



Vai pela istrada enluarada
Tanta gente a ritirar
Levando só necessidade
Saudades do seu lugar

Esse povo muito longe
Sem trabalho, vem prá cá
Vai pela istrada enluarada
Com tanta gente a ritirar
Rumano para a cidade
Sem vontade de chegar

Passa dia, passa tempo
Passa o mundo devagar
Lembrança passa com o vento
Pidindo não ritirar

Tudo passa nesse mundo
Só não passa o sofrimento
Vai pela istrada enluarada
Com tanta gente a ritirar
Sem saber que mais adiante
Um ritirante vai ficar
  
Se eu tivesse algum querer
Nesse mundo de ilusão
Não deixava que a saudade sociada cum penar
Vivesse pelas estradas do sofrer a mendigar
Vai pela estrada enluarada
Com tanta gente a ritirar
Levando nos ombros a cruz
Que Jesus deixou ficar

Eu não canto por soberba
Nem tanto por reclamar
Em minha vida de labuta
Canto o prazer, canto a dor
Que as beleza devoluta
Que Deus no sertão botou
Vai pela estrada enluarada
Com tanta gente a ritirar
Passando com taça e veno
Bebendo fé e luar