sábado, 22 de fevereiro de 2020

UM ANJO








UM ANJO
Óleo sobre tela
0,40 X 0,50
Alex Rocha
2019
















Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando se chega pra cá?
Perguntaria também
Como é que ele é feito



Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que é que ele não fez
A gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Vivemos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?


Landro Gomes de Barros

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A ESPERANÇA








A ESPERANÇA
Óleo sobre tela
0,40 X 0,50
Alex Rocha
2019

















Sou o mar soltando a rima
Em cada onda quebrada
Pela proa da jangada
Ora embaixo, ora em cima
O meu ciclo não termina
É corrente quente e fria
Conheço a barra do dia
E a linha do horizonte
Sou base pra qualquer monte
O meu nível rege a guia

Navego pela poesia
Num Galope a Beira Mar
Sou o verso pra rimar
O ciclo que se inicia
Meu canto não silencia
E sonoriza o balanço
Eu nunca paro e nem canso
Vou invadindo fronteiras
Fincando frases bandeiras
Em cada ponto que avanço

Sou valente sendo manso
Bravio, calmo e sereno
Pra ser grande, sou pequeno
Querendo colo e descanso
Sou a passada do ganso
Na mansidão nova Lua
Recebo versos das ruas
Por onde o vento trafega
E entre espumas me entrega
Saudades das noites suas

Em meus sonhos perpetua
Outro canto de saudade
Vou construindo a idade
Eu sou o tempo que atua
Formando outra pele nua
Com a semente do bem
E cada verso que vem
Traz outra rima de Paz
Somos isso, e muito mais
Filhos de Deus, Amém!



  

Maviael Mel

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

O LUMIAR DO LAMPIÃO

























O Lumiar do lampião
Alex Rocha
Óleo sobre tela
0,80X100 cm
2019














Ê Cangaceiro,
Onde mora lampião
Mora junto de São Pedro
Lhe contando a região
Sertão, meu sertão
Onde está Lampião
O famoso cabra da peste
E Maria sua paixão
Nasceu na terra de valente
Onde a faca não só corta cana corta gente
Viveu na terra de valente
Onde a faca dança e roda corta e mata gente
E quem morre primeiro deixa o amigo pra enterrar
É mais uma cruz que marca uma história pra contar

Você recado de gente
De cara valente que nem Lampião
Não tem mais cavalo e nem sela
E seu maço de vela já parou de queimar
Eh Cangaceiro,
Onde mora lampião
Mora junto de São Pedro
Lhe contando a região
Sertão, meu sertão
Onde está Lampião
O famoso cabra da peste
E Maria sua paixão
Nasceu na terra de valente
Onde a faca não só corta cana corta gente
Viveu na terra de valente
Onde a faca dança e roda corta e mata gente
Onde a faca dança e roda corta e mata gente
Onde a faca dança e roda corta e mata gente
Onde a faca dança e roda corta e mata gente
Onde a faca dança e roda corta e mata gente


Banda de Pau e Corda
Lampião


segunda-feira, 16 de setembro de 2019

UM PÁSSARO EM POSE GARBOSA







Um Pássaro em Pose Garbosa
Alex Rocha
Óleo sobre tela
50 X 70
2019









Pássaro em pena, pintura
Arte divina, candura
Preso em gaiola, tortura
Asas voando, soltura.

Corta o pincel, escultura
na tela os limites, moldura
nasce a feliz criatura
da arte divina, tão pura.

Passa um menino, sorri
Viaja pra longe de si
Sonha voar pelo mundo
Voltar no mesmo segundo

Na mesa o café esfriando
E a tinta que vai escorrendo
Escuto o leitor admirando:
-Madeira está derretendo!

É que a mente tão fértil, engenhosa
Esculpiu tal madeira formosa
Na tela tão branca e lustrosa
Um pássaro, em pose garbosa.

Por Nilton Cirqueira

terça-feira, 16 de julho de 2019

AS TRAMELAS DE DOM SEBASTIÃO








As tramelas de Dom Sebastião
70 X 1,00 cm
Óleo sobre tela
Alex Rocha
2019













Durante três anos, de 1835 a 1838, na Serra do Catolé, em São José do Belmonte, Pernambuco, uma comunidade com cerca de mil pessoas morou próximo às pedras de 30 e 33 metros de altura, sob a liderança do jovem João Antônio dos Santos e posteriormente de seu cunhado João Ferreira; a partir dali nasceria à fantástica história das "Pedras do Reino". A crença era baseada no sebastianismo. Inspirado em cordel sobre D. Sebastião, João Antônio dizia que o mitológico rei português (morto no século 16 em batalha contra os mouros) desencantaria ali, e acreditavam no aparecimento, em pleno sertão, do Reino Encantado de Dom Sebastião, revivendo, assim, a lenda lusitana do rei que retornaria para restaurar a soberania do Império Português, livrando o povo das mazelas. A espera terminou com o massacre da Pedra do Reino, em que 53 pessoas, dentre essas, 20 crianças; e 14 cães morreram em sacrifício, entre os dias 14 e 16 de maio de 1838.

Dom Sebastião foi o Rei português morto em 1578 quando, aos 24 anos, se lança numa nova Cruzada, rumo ao Marrocos. Na tentativa de converter mouros em cristãos, desaparece na batalha de Alcácer Quibir. Seu corpo nunca fora encontrado. Portugal anos depois passa para as mãos espanholas. Cresce em terras lusas o sonho de que D.Sebastião um dia retorne para restaurar o Império Português. O mito se estabelece.

No Brasil, o mito sebastianista da Pedra do Reino prometia que o Rei finalmente voltaria do deserto instalando aos pés da Pedra Bonita – nome primitivo da Pedra do Reino – um Reino Encantado. Distribuiria riqueza, terras e libertaria os negros da escravidão. O sangue dos fiéis derramado nas Pedras - pregava o líder dos sebastianistas - abriria caminho para o “desencantamento” do Rei. 
O Movimento fanático surgiu no município de Floresta (em área que depois integraria o município de São José do Belmonte), interior de Pernambuco, em 1836, um ano depois de o estado sofrer uma grande seca. Teve início com as pregações do beato João Antônio. O beato foi logo seguido por uma legião de adeptos, mas, pressionado por padres católicos, desistiu da iniciativa. Dois anos depois, João Ferreira (um cunhado do beato João Antônio) reinicia o movimento, com as mesmas promessas de criação do "Reino Encantado". O fanático João Ferreira reunia seus seguidores em torno de um grande rochedo;a "Pedra do Reino"; e dizia que, para que o rei Sebastião revivesse e pudesse realizar o milagre da riqueza, era preciso que a grande pedra ficasse totalmente tingida com sangue humano. Quem doasse o sangue para a volta do rei seria recompensado: velhos ressuscitariam jovens; pretos voltariam brancos e todos, além de ricos, seriam imortais na nova vida. Tiradas de suas lavouras pelo flagelo da seca, famílias de agricultores acamparam em volta da rocha e passaram a aguardar o milagre. 


Os registros oficiais sobre a Pedra do Reino citam uma beberagem à base de manacá com jurema servida por João Ferreira aos seus seguidores, durante as cerimônias sebastianistas. Um é raiz; a outra, erva. Ambos, fortes alucinógenos. João Ferreira proclamou-se "rei" e estabeleceu os costumes da comunidade ali formada. Por exemplo, cada homem poderia ter várias mulheres, mas cabia ao "rei" o direito da primeira noite: ele dormia a noite de núpcias com a recém-casada, devolvendo-a no dia seguinte ao marido. Todas as outras normas de conduta também eram ditadas por ele. A tentativa de tingir a pedra com sangue humano (para que, finalmente, o milagre acontecesse) foi levada à prática durante três dias de maio de 1838. O primeiro a ser degolado foi o pai do "rei" João Ferreira. Outras 50 pessoas foram sacrificadas, a maioria crianças. Mas, mesmo assim, o rei Sebastião não apareceu. Os fanáticos, então, decidiram sair em procissão, tendo à frente João Ferreira. Encontraram uma patrulha e foram massacrados.

Fonte:www.sobrenatural.org.br

terça-feira, 21 de maio de 2019

AUTORRETRATO



























AUTORRETRATO
Óleo sobre tela
50 X 70 cm
Alex Rocha
2019









Ao nascer eu não estava acordado, de forma que Não vi a hora.
 Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
 Depois eu já morri 14 vezes. 
Só falta a última. 
Escrevi 14 livros. 
E deles estou livrado.
 São todos repetições do primeiro. (Posso fingir de outros, mas não posso fugir de mim.) 
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
 Em pensamento e palavras namorei noventa moças, mas pode que nove.

 Produzi desobjetos, 35, mas pode que onze. 
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios, um prego que farfalha, um parafuso de veludo, etc etc. 
Tenho uma confissão: noventa por cento do que escrevo é invenção;
 só dez por cento que é mentira.
 Quero morrer no barranco de um rio: - sem moscas na boca descampada!



AUTORRETRATO (Manuel de Barros)

quarta-feira, 15 de maio de 2019

GRATIA PLENA










Gratia Plena
20 X 30 Cm
óleo Sobre Tela
Alex Rocha
2019














De olhos fechados
 Sem abrir a boca 
Ela me falou de amor
 E todas as palavras 
 Estavam naquela lágrima 
 Banhando seu rosto 


Antônio Maciel

segunda-feira, 1 de abril de 2019

MELANCOLIA







MELANCOLIA
Óleo sobre tela
0,50 X 0,70 cm
Alex Rocha
2019







Melancolia



 No rio surgiu um peixe
 Alegre e saltitante 
Glub glub; Fish Fish… 
 Brincava e comia…
 Saltava e comia… 
 Até que um dia… 
No rio caiu o rejeite… 
E o Fish nada via…
Não respirava, não mexia… 
Não nadava, nem comia… 
Melancolia...
Crote crote, ave Maria! 
O Fish ficou confuso, 
Nem de peixe ele entendia… 
 Até que um dia… 
O peixe comeu um parafuso… 

 Júlia Lícia

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Cangaceiro


























Cangaceiro
Óleo sobre tela
0,60  080 cm
2019
Alex Rocha







 Ê Cangaceiro, Onde mora lampião 
Mora junto de São Pedro 
Lhe contando a região Sertão, meu sertão 
Onde está Lampião
 O famoso cabra da peste E Maria sua paixão
 Nasceu na terra de valente
 Onde a faca não só corta cana corta gente
 Viveu na terra de valente 
 Onde a faca dança e roda corta e mata gente 
E quem morre primeiro deixa o amigo pra enterrar 
É mais uma cruz que marca uma história pra contar

 Você recado de gente 
De cara valente que nem Lampião
 Não tem mais cavalo e nem sela
 E seu maço de vela já parou de queimar
 Eh Cangaceiro, Onde mora lampião 
Mora junto de São Pedro 
Lhe contando a região 
Sertão, meu sertão 
Onde está Lampião
 O famoso cabra da peste
 E Maria sua paixão 
Nasceu na terra de valente
 Onde a faca não só corta cana corta gente 
Viveu na terra de valente
 Onde a faca dança e roda corta e mata gente 
Onde a faca dança e roda corta e mata gente 
Onde a faca dança e roda corta e mata gente 
Onde a faca dança e roda corta e mata gente 
Onde a faca dança e roda corta e mata gente




Lampião Banda de Pau e Corda

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

BRAMURAS DE SÃO FRANCISCO












BRAMURAS DE SÃO FRANCISCO

Óleo sobre tela
70 X 080
2018
Alex Rocha










Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia
Tudo esbarra embriagado de seu lume
Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia
Só vigia um ponto negro: o meu ciúme

O ciúme lançou sua flecha preta
E se viu ferido justo na garganta
Quem nem alegre, nem triste, nem poeta
Entre Petrolina e Juazeiro canta

Velho Chico vens de Minas
De onde o oculto do mistério se escondeu
Sei que o levas todo em ti, não me ensinas
E eu sou só eu, só eu só, eu

Juazeiro, nem te lembras dessa tarde
Petrolina, nem chegaste a perceber
Mas na voz que canta tudo ainda arde
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê

Tanta gente canta, tanta gente cala
Tantas almas esticadas no curtume
Sobre toda estrada, sobre toda sala
Paira, monstruosa, a sombra do ciúme


Caetano -  O Ciúme

AO VAQUEIRO





AO VAQUEIRO
Óleo sobre tela
50 X 070
2018

Alex Rocha












 Ô Quilimero Assusta meu irirmão
Iantes mêrmo que nóis dois saudemo
Eu te pregunto naquele refrão
Qui na fartura nóis sempre cantemo
Na catinga tá chuveno
Ribeirão istão incheno
Me arresponda mei irirmão
Cuma o povo de lá tão
Só a terra que você dexo
Quinda tá lá num ritirou-se não
Os povo as gente os bicho as coisa tudo
Uns ritirou-se in pirigrinação
Os òtro os mais velho mais cabiçudo
Voltaro pru qui era pru pó do chão
Adispois de cumê tudo
Cumêr' precata surrão
Cumêr' coro de rabudo
Cumêr' cururu rodão
E as cacimba do ri gavião
Já deu mais de duas cova d' um cristão
Inté aquela a da cara fêa
Se veno só dexô a terra alêa
Foi nas pidrinha cova de serêa
Vê sua madrinha
E vei de mão c'ua vea
Na cantiga morreu tudo
Qui nem preciso caxão
Meu cumpadre João Barbudo
Num cumpriu obrigação
Vai prá mais de duas lua
Que meu pai mandô eu no Nazaré
Buscá u'a quarta de farinha
Eu e o irmão Zé Bento vinha andano a pé
Mãe lua magrinha qui está no céu
Será qui cuano eu cheguo in minha terra
Ainda vou encontrar o que é meu
Será que Deus do céu, aqui na terra
De nosso povo intonce se isqueceu
Na catinga morreu tudo
Qui nem percisô caxão
Meu cumpadre João Barbudo
Num cumpriu a obrigação
Udo aõ udo aõ

Elomar Figueira - A Pergunta (do "O Tropeiro Gonsalin")


sábado, 14 de julho de 2018

CABEÇA DE SÃO FRANCISCO











































Cabeça de São Francisco
Alex Rocha
Óleo sobre tela
060 X 0,70 cm                 
2018


“(…) Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos.
Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. (…) Deus existe mesmo quando não há. (…) Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. (…)” 





 Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”. 1994, p. 76.

sábado, 3 de março de 2018

PEIXE DA TERCEIRA MARGEM





















Alex Rocha
Peixe da Terceira Margem
080 X 1,00
Óleo sobre tela
2018


Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.


Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

Trecho de do conto “A Terceira Margem do Rio” de Guimarães  Rosa.


domingo, 7 de janeiro de 2018

ENCANTADO

Encantado
Óleo sobre tela
1.00 X 0,80
Alex Rocha
Janeiro 2018




Que nasci no ano de 1908, você já sabe. Você não deveria me pedir mais dados numéricos. Minha biografia, sobretudo minha biografia literária, não deveria ser crucificada em anos. As aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras; para mim, são minha maior aventura. Es­crevendo, descubro sempre um novo pedaço de infinito. Vivo no in­finito; o momento não conta. Vou lhe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nesta vida, também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa. 
Quando escrevo, repito o que vivi antes. E para estas duas vidas um léxico apenas não me é suficiente. Em outras palavras: gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. O crocodilo vem ao mundo como um magister da metafísica, pois para ele cada rio é um oceano, um mar da sabedoria, mesmo que chegue a ter cem anos de idade. Gostaria de ser um crocodilo, porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem.
Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: sua eternidade. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade. A estas alturas, você já deve estar me considerando um charlatão ou um louco.


Guimarães Rosa

terça-feira, 14 de novembro de 2017

O ARACUÃ
























ARACUÃ
Alex Rocha
Óleo Sobre Tela
0;80X1;20
2017




OS OLHOS QUE MORAM NA CAIXA DE FERRAMENTAS




Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram". 
 Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física. 
 William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
 Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema. 
 Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção". 

 A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.


 Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".


 Rubem Alves

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O TUCANO (O quintal da minha casa é maior que o mundo)










O Tucano ( O quintal da minha casa é maior que o mundo)
 0,80 X 1,20
 Óleo sobre tela
2017
 Alex Rocha




No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.




A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som.






Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.

E pois.









Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos — O verbo tem que pegar delírio.













Manoel de Barros



domingo, 6 de novembro de 2016

O fazedor de amanhecer
















Ales Rocha
Óleo sobre tela
0,70 X 1,00
2016













Sou leso em tratagens com máquina. 
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
 Em toda a minha vida só engenhei 3 máquinas 
Como sejam: 
Uma pequena manivela para pegar no sono. 
Um fazedor de amanhecer para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo. 
E a glória entronizou-se para sempre em minha existência.


Manoel de Barros

domingo, 23 de outubro de 2016

O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS

Alex Rocha
0,60 X 0,80
Óleo sobre Tela
2016



Uso a palavra para compor meus silêncios.
 Não gosto das palavras fatigadas de informar.
 Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão 
tipo água pedra sapo.
 Entendo bem o sotaque das águas
 Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
 Prezo insetos mais que aviões.
 Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. 
Tenho em mim um atraso de nascença.
 Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. 
Tenho abundância de ser feliz por isso. 
Meu quintal é maior do que o mundo. 
Sou um apanhador de desperdícios: Amo os restos como as boas moscas
 Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
 Porque eu não sou da informática:
 eu sou da invencionática.
 Só uso a palavra para compor meus silêncio. 


 Manoel de Barros

terça-feira, 28 de junho de 2016

A Incapacidade de Ser Verdadeiro








Marionete
òleo Sobre Tela
0,70 X 1,00
Alex Rocha
2016


























Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos feito de queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo.





Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias. Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. 












Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça: – Não há nada a fazer, Dona Colo. Este menino é mesmo um caso de poesia. Carlos 
















Carlos Drummond de Andrade