terça-feira, 21 de maio de 2019

AUTORRETRATO



























AUTORRETRATO
Óleo sobre tela
50 X 70 cm
Alex Rocha
2019









Ao nascer eu não estava acordado, de forma que Não vi a hora.
 Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
 Depois eu já morri 14 vezes. 
Só falta a última. 
Escrevi 14 livros. 
E deles estou livrado.
 São todos repetições do primeiro. (Posso fingir de outros, mas não posso fugir de mim.) 
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
 Em pensamento e palavras namorei noventa moças, mas pode que nove.

 Produzi desobjetos, 35, mas pode que onze. 
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios, um prego que farfalha, um parafuso de veludo, etc etc. 
Tenho uma confissão: noventa por cento do que escrevo é invenção;
 só dez por cento que é mentira.
 Quero morrer no barranco de um rio: - sem moscas na boca descampada!



AUTORRETRATO (Manuel de Barros)

quarta-feira, 15 de maio de 2019

GRATIA PLENA










Gratia Plena
20 X 30 Cm
óleo Sobre Tela
Alex Rocha
2019














De olhos fechados
 Sem abrir a boca 
Ela me falou de amor
 E todas as palavras 
 Estavam naquela lágrima 
 Banhando seu rosto 


Antônio Maciel

segunda-feira, 1 de abril de 2019

MELANCOLIA







MELANCOLIA
Óleo sobre tela
0,50 X 0,70 cm
Alex Rocha
2019







Melancolia



 No rio surgiu um peixe
 Alegre e saltitante 
Glub glub; Fish Fish… 
 Brincava e comia…
 Saltava e comia… 
 Até que um dia… 
No rio caiu o rejeite… 
E o Fish nada via…
Não respirava, não mexia… 
Não nadava, nem comia… 
Melancolia...
Crote crote, ave Maria! 
O Fish ficou confuso, 
Nem de peixe ele entendia… 
 Até que um dia… 
O peixe comeu um parafuso… 

 Júlia Lícia

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Cangaceiro


























Cangaceiro
Óleo sobre tela
0,60  080 cm
2019
Alex Rocha







 Ê Cangaceiro, Onde mora lampião 
Mora junto de São Pedro 
Lhe contando a região Sertão, meu sertão 
Onde está Lampião
 O famoso cabra da peste E Maria sua paixão
 Nasceu na terra de valente
 Onde a faca não só corta cana corta gente
 Viveu na terra de valente 
 Onde a faca dança e roda corta e mata gente 
E quem morre primeiro deixa o amigo pra enterrar 
É mais uma cruz que marca uma história pra contar

 Você recado de gente 
De cara valente que nem Lampião
 Não tem mais cavalo e nem sela
 E seu maço de vela já parou de queimar
 Eh Cangaceiro, Onde mora lampião 
Mora junto de São Pedro 
Lhe contando a região 
Sertão, meu sertão 
Onde está Lampião
 O famoso cabra da peste
 E Maria sua paixão 
Nasceu na terra de valente
 Onde a faca não só corta cana corta gente 
Viveu na terra de valente
 Onde a faca dança e roda corta e mata gente 
Onde a faca dança e roda corta e mata gente 
Onde a faca dança e roda corta e mata gente 
Onde a faca dança e roda corta e mata gente 
Onde a faca dança e roda corta e mata gente




Lampião Banda de Pau e Corda

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

BRAMURAS DE SÃO FRANCISCO












BRAMURAS DE SÃO FRANCISCO

Óleo sobre tela
70 X 080
2018
Alex Rocha










Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia
Tudo esbarra embriagado de seu lume
Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia
Só vigia um ponto negro: o meu ciúme

O ciúme lançou sua flecha preta
E se viu ferido justo na garganta
Quem nem alegre, nem triste, nem poeta
Entre Petrolina e Juazeiro canta

Velho Chico vens de Minas
De onde o oculto do mistério se escondeu
Sei que o levas todo em ti, não me ensinas
E eu sou só eu, só eu só, eu

Juazeiro, nem te lembras dessa tarde
Petrolina, nem chegaste a perceber
Mas na voz que canta tudo ainda arde
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê

Tanta gente canta, tanta gente cala
Tantas almas esticadas no curtume
Sobre toda estrada, sobre toda sala
Paira, monstruosa, a sombra do ciúme


Caetano -  O Ciúme

AO VAQUEIRO





AO VAQUEIRO
Óleo sobre tela
50 X 070
2018

Alex Rocha












 Ô Quilimero Assusta meu irirmão
Iantes mêrmo que nóis dois saudemo
Eu te pregunto naquele refrão
Qui na fartura nóis sempre cantemo
Na catinga tá chuveno
Ribeirão istão incheno
Me arresponda mei irirmão
Cuma o povo de lá tão
Só a terra que você dexo
Quinda tá lá num ritirou-se não
Os povo as gente os bicho as coisa tudo
Uns ritirou-se in pirigrinação
Os òtro os mais velho mais cabiçudo
Voltaro pru qui era pru pó do chão
Adispois de cumê tudo
Cumêr' precata surrão
Cumêr' coro de rabudo
Cumêr' cururu rodão
E as cacimba do ri gavião
Já deu mais de duas cova d' um cristão
Inté aquela a da cara fêa
Se veno só dexô a terra alêa
Foi nas pidrinha cova de serêa
Vê sua madrinha
E vei de mão c'ua vea
Na cantiga morreu tudo
Qui nem preciso caxão
Meu cumpadre João Barbudo
Num cumpriu obrigação
Vai prá mais de duas lua
Que meu pai mandô eu no Nazaré
Buscá u'a quarta de farinha
Eu e o irmão Zé Bento vinha andano a pé
Mãe lua magrinha qui está no céu
Será qui cuano eu cheguo in minha terra
Ainda vou encontrar o que é meu
Será que Deus do céu, aqui na terra
De nosso povo intonce se isqueceu
Na catinga morreu tudo
Qui nem percisô caxão
Meu cumpadre João Barbudo
Num cumpriu a obrigação
Udo aõ udo aõ

Elomar Figueira - A Pergunta (do "O Tropeiro Gonsalin")


sábado, 14 de julho de 2018

CABEÇA DE SÃO FRANCISCO











































Cabeça de São Francisco
Alex Rocha
Óleo sobre tela
060 X 0,70 cm                 
2018


“(…) Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos.
Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. (…) Deus existe mesmo quando não há. (…) Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. (…)” 





 Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”. 1994, p. 76.

sábado, 3 de março de 2018

PEIXE DA TERCEIRA MARGEM





















Alex Rocha
Peixe da Terceira Margem
080 X 1,00
Óleo sobre tela
2018


Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.


Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

Trecho de do conto “A Terceira Margem do Rio” de Guimarães  Rosa.


domingo, 7 de janeiro de 2018

ENCANTADO

Encantado
Óleo sobre tela
1.00 X 0,80
Alex Rocha
Janeiro 2018




Que nasci no ano de 1908, você já sabe. Você não deveria me pedir mais dados numéricos. Minha biografia, sobretudo minha biografia literária, não deveria ser crucificada em anos. As aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras; para mim, são minha maior aventura. Es­crevendo, descubro sempre um novo pedaço de infinito. Vivo no in­finito; o momento não conta. Vou lhe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nesta vida, também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa. 
Quando escrevo, repito o que vivi antes. E para estas duas vidas um léxico apenas não me é suficiente. Em outras palavras: gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. O crocodilo vem ao mundo como um magister da metafísica, pois para ele cada rio é um oceano, um mar da sabedoria, mesmo que chegue a ter cem anos de idade. Gostaria de ser um crocodilo, porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem.
Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: sua eternidade. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade. A estas alturas, você já deve estar me considerando um charlatão ou um louco.


Guimarães Rosa

terça-feira, 14 de novembro de 2017

O ARACUÃ
























ARACUÃ
Alex Rocha
Óleo Sobre Tela
0;80X1;20
2017




OS OLHOS QUE MORAM NA CAIXA DE FERRAMENTAS




Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram". 
 Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física. 
 William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
 Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema. 
 Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção". 

 A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.


 Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".


 Rubem Alves

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O TUCANO (O quintal da minha casa é maior que o mundo)










O Tucano ( O quintal da minha casa é maior que o mundo)
 0,80 X 1,20
 Óleo sobre tela
2017
 Alex Rocha




No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.




A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som.






Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.

E pois.









Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos — O verbo tem que pegar delírio.













Manoel de Barros



domingo, 6 de novembro de 2016

O fazedor de amanhecer
















Ales Rocha
Óleo sobre tela
0,70 X 1,00
2016













Sou leso em tratagens com máquina. 
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
 Em toda a minha vida só engenhei 3 máquinas 
Como sejam: 
Uma pequena manivela para pegar no sono. 
Um fazedor de amanhecer para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo. 
E a glória entronizou-se para sempre em minha existência.


Manoel de Barros

domingo, 23 de outubro de 2016

O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS

Alex Rocha
0,60 X 0,80
Óleo sobre Tela
2016



Uso a palavra para compor meus silêncios.
 Não gosto das palavras fatigadas de informar.
 Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão 
tipo água pedra sapo.
 Entendo bem o sotaque das águas
 Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
 Prezo insetos mais que aviões.
 Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. 
Tenho em mim um atraso de nascença.
 Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. 
Tenho abundância de ser feliz por isso. 
Meu quintal é maior do que o mundo. 
Sou um apanhador de desperdícios: Amo os restos como as boas moscas
 Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
 Porque eu não sou da informática:
 eu sou da invencionática.
 Só uso a palavra para compor meus silêncio. 


 Manoel de Barros

terça-feira, 28 de junho de 2016

A Incapacidade de Ser Verdadeiro








Marionete
òleo Sobre Tela
0,70 X 1,00
Alex Rocha
2016


























Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos feito de queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo.





Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias. Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. 












Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça: – Não há nada a fazer, Dona Colo. Este menino é mesmo um caso de poesia. Carlos 
















Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 21 de abril de 2016

O Operário Em Construção



























Auto Retrato
Alex Rocha


E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. IV, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído

O operário em construção.

Vinicius de Moraes

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Um Canto de Sabiá

Um canto no quintá, o que será? Um agitar de asas, um voo rasante, o que será que há?
Que isso minino que chega num alarmar. Fazendo festa, fazendo pirraça. O que será que há?
_Minino vê lá no fundo, que é que tá fazendo tanto barulho.
_Zé, coloca a gaiola no chão, Biá quer brincar!
_Coloco Maria!
Biá dispara a cantar.
_Minino, deixa Biá cantar.
_Deixo mainha. É que ela gosta de beliscar.

E Biá voa, mostrando que e dona do nosso quintá. Minina sabida, só come as furmiga bateno as asinha um doce de amar. 
_Qui será que Biá pensa? Que é dela o canto de amar?
 Ela é sabidinha, balança a asinha , e dá um beijinho , uma biliscadinha de leve, e torna vuar. Eu de longe olho pra ela, queria ter daquela um dedinho do incantar.  Passea o dia todinho, sem nem pro sol ligar. Bia tá nem aí!
_Mainha tem medo de gato pegar.
_Gato pega nada! Biá botô inté cachorro pra correr, que dirá um bichano inferná!
 _Quiria ser que nem ela, vuar o tempo todinho, cantar e cantar.
_Zé coloca a gaiola, Biá quer entrar!

E ela vai certinha pra tirar um cochilar.
E a noite passa rapidinho. E é hora de Bíá cantar.
Zé coloca a gaiola no chão. Mais hoje num tem cantar. Mainha num tem palavra. Zé num só murmurar. Biá foi pro céu dos passarinhos, onde agora vai morar. Tirei um retrato dela só pra nois oiá.

_Ispertinha a bichinha, fez inté pose, No meu coração vou guardar!



Cida Flores

sábado, 9 de abril de 2016

O Pássaro Encantado









O Pássaro Encantado
Alex Rocha
2016
Óleo sobre tela
0,60 X 0,50


O Pássaro Encantado


Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.

Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.

Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…

— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…

E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.

Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.

— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.

E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.

Mas chegava a hora da tristeza.

— Tenho de ir — dizia.

— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…

— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.

Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”

Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.

Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…

— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…

A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.

Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…

Até que não aguentou mais.

Abriu a porta da gaiola.

— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…

— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…

E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.

— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…

E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.

— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…

Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!

Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…

E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”

E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.






As mais belas histórias de Rubem Alves
Lisboa, Edições Asa, 2003